“Eu vim aqui para falar sobre os
livros sagrados das religiões africanas, que é o que foi perguntado para mim.
Não existe escrito sobre os conhecimentos antigos das religiões africanas, isso
é passado de pai para filho, você vai aprendendo conforme você vai crescendo
dentro do culto, então o babalaô (o pai-de-santo) que vai conhecer todos os “escritos”
antigos e que vai repassando conforme ele vai confiando na pessoa, conforme ela
vai provando que pode saber, conforme ela vai subindo dentro da hierarquia do
culto.
Por que não é escrito? Por mais
que seja grande o risco de esse conhecimento se perder, os africanos mantinham
suas tradições orais, pois acreditavam que a palavra, a fala, tinha uma “alma”,
um espírito -eles tinham a crença de que tudo tem um espírito, sendo Deus o
espírito maior (NamoZambi), e os outros espíritos apenas Zambi- e quando algo
era escrito, seu Zambi era aprisionado e não podia ser transmitido. O que de
certa maneira faz sentido, pois até hoje evita-se abordar as pessoas de certa
maneira, como por exemplo o sarcasmo, no meio escrito, por ter o risco de não
ser compreendido, o que é difícil de acontecer quando se é algo passado
oralmente. O Ifás, então, por mais que possam ser encontrados escritos, devem
ser ouvidos, para você entender o teor que essa história tem, porque só ler a
história é fácil, mas a interpretação torna-se literal, já quando se é escutada
essa mesma história, toca no coração, é mais fácil de interpretar, tirando
assim, o real significado das histórias. Não adianta de nada, eu mandar escrito
para vocês toda uma história contando o porquê filho de Oxalá, não pode beber
dendê. Na verdade, dentro desse exemplo já encontramos uma falha, o Ifá não foi
criado para explicar o fato da pessoa não poder ingerir o produto, isso é uma
das interpretações que podem ser tiradas da história, que na verdade nem é fato
principal da mesma. Nem todas as crenças
africanas pregam isso, algumas raízes específicas sim, pois foi isso que eles
tiraram desse conto, além da história principal que existe nesse Ifá.
Os Ifás, então, são mantidos na
tradição oral, para que o Zambi da palavra não seja perdido que é transmitido de
pessoa para pessoa, porque tudo para os africanos eram rituais e contar uma
história também, pois quando você conta uma história, sua mente se conecta com
as pessoas do conto, logo, se estou contando a história dos Orixás, estou me
ligando aos Orixás, estou evocando os Orixás. É um Oriki, é uma evocação, só
que sem fluir o Orixá, sem a “incorporação”. Uma evocação mais sutil, mas mesmo
assim de muita importância, e é por isso que deve ser transmitida oralmente e
deve ser transmitida para alguém que você tenha confiança. Os Ifás são os “escritos
sagrados”, só que eles não podem ser escritos, senão eles perdem o Zambi, essa
é a nossa crença.
Dentro da parte de confiança,
pode ser entendido o porquê de haver terreiros autônomos e de ideais
diferentes. Um babalorixá confia que a pessoa que está aprendendo com ele usará
esse conhecimento para o bem, porém ele não pode garantir que a sua
interpretação será a mesma que a dele, pois o Zambi que chega para mim é
diferente do Zambi que chega a você. O que parece muito com a definição de
Orixás que vem a seguir.
Orixá vem dos termos Ori e Xá. Ori, ao pé da
letra, significa cabeça, mas tem um sentido mais parecido com caminho ou
destino. Já Xá significa líder. Logo, Orixá é o líder do seu caminho, do seu
destino, traduzido de uma maneira melhor, significa guia. São partes de Deus,
não deus. São divindades, não deuses. São devas. São membros de um Deus, um
espírito tão grande NamoZambi, que pode ser evocado em sua totalidade, mas ele
é tão sutil a ponto de podermos chamar “partes” dele, conceitos dele, pois ele
não é uma ideia, ele é o mundo das ideias. Então eu posso evocar só uma dessas
ideias, e essa ideia será nomeada por mim, isso é um Orixá. São dez os
principais Orixás (Oxalá, Ogum, Xangô, Oxóssi, Iansã, Oxum, Iemanjá, Nanã
Buruque e Omulu), porém dentro de toda a teologia africana seguimos a teoria de
que se o homem é diferente com o passar da vida, os Orixás também e como eles
são ideias, quando eles mudam, eles recebem outros nomes. Oxalá quando nasceu,
era Oxaguian, era uma força jovial, mas era uma força que não se entendia,
então tinha um poder estrondoso, criava realidades apenas com o pensamento, mas
tinha o autoconhecimento, ele era um guerreiro de batalhas internas, logo
depois ele virou Orixalá (Oxalá é a abreviação desse nome), o Orixá dos Orixás,
o guia dos guias, pois Oxaguian gerou todos os Orixás e assim virou guia dos
guias, ele ensinava aos Orixás o que devia ser feito, porque ele era o
ancestral deles. Depois disso, ele virou Oxalufan, o mais velho, o sábio, pois
é a Onisciência divina, porque todos os Orixás vieram dele, logo, tudo que os
Orixás sabem ele sabe, e quando todos os Orixás pararam de procurar os seus
devidos lugares e acharam seus devidos lugares e faziam seus trabalhos de
maneira certa já, Oxalufan soube de tudo, porque todos os Orixás sabiam o que
fazer. Então os Orixás tem os nomes fixos, que são as dez linhas principais já
citadas acima, mas esses Orixás podem mudar ao longo da vida, do contexto, do
tempo, do lugar ou com quem estão. Por mais que os Orixás, não sejam espíritos
humanos, e sim forças/ energias muito sutis, nos Ifás eles são
antropomorfizados para ser mais fácil a criação de metáforas e ao mesmo tempo
ser mais fácil o entendimento (levando em conta todo o contexto histórico, onde
escravos analfabetos e simples seguiam essas religiões, isso só dentro do
Brasil, ignorando todo o contexto africano mais antigo)”.
Observação: Esta mensagem foi um pedido, eis que mandaram dúvidas por meio dos contatos do blog e de pronto o Pai Benedito se propôs a ajudar no esclarecimento.
Que seus mentores, guias e Orixás te abençoem e te iluminem.
Abraços e orações,
Druida.







